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Becoming a Part of Europe: as histórias atrás do projeto.

Estas são as histórias partilhadas durante a segunda reunião do grupo de trabalho nacional responsável pela investigação do projeto Becoming a Part of Europe. Antes de conseguirem responder à questão “Como se pode utilizar o mecanismo do youth work com os refugiados?”, os parceiros conheceram o passado, o presente e as expectativas de alguns deles. São as histórias de Afsana, Ahmed, Amjad e Shoki.

Afsana fugiu do Afeganistão há dois anos. Até chegar à Suécia passou pelo Irão, Turquia e Grécia. Até ao destino final, andou a pé, de barco e de comboio. Já Shoki, também com a ambição de chegar à Suécia, pagou 1200 dólares para a viagem de barco até à ilha grega de Chios. Amjad decidiu abandonar a Síria quando recebeu a ordem para participar no serviço militar obrigatório. Foi da Turquia até à Grécia e foi de autocarro que conseguiu chegar até à Macedónia, depois Sérvia e Áustria. Só depois dessa jornada é que chegou ao destino final: a Alemanha. A decisão de Ahmed foi tomada assim que os militares iraquianos entraram na sua cidade. Partiu em direção à Eslovénia com a mãe e os dois irmãos mais novos.

São histórias como tantas outras de quem se viu obrigado a fugir à guerra para, ao mesmo tempo, fugirem à morte e à obrigação de lutar e matar outros. São estas histórias que, através do projeto Becoming a Part of Europe, com a parte de investigação a cargo de Portugal, damos a conhecer.


Afsana

Agora com 31 anos, a afegã descreve o seu país como uma “prisão” da qual não teve outra opção além da fuga. Agora segura na Suécia, lembra-se de “todas as coisas más.” “Estou a tentar esquecer o passado e começar uma nova vida aqui mas não é nada fácil”, desabafa.

Considerando-se uma mulher sonhadora, os problemas começaram assim que se divorciou, tornando-se extremamente difícil encontrar um emprego e casa que conseguisse pagar. Numa sociedade em que “é suposto as mulheres aceitarem e seguirem as decisões dos pais, irmãos e maridos”, explicou que é impossível apresentar-se como divorciada sem que todos a considerem uma má pessoa. Em vez de ter uma vida mais segura, depois de terminar o casamento viu-se vítima de chantagem por parte do ex-marido, que ameaçava contar aos Talibãs que Afsana trabalhava em organizações financiadas pelos Estados Unidos.

Fugiu do Afeganistão e, já na Suécia, o seu inglês fluente fez com que se destacasse entre a multidão do campo de refugiados, traduzindo e facilitando a comunicação entre todos.

Desde então, já trabalhou na área da restauração e foi professora assistente em várias escolas. Além disso, encontrou uma ONG local onde colabora, ajudando os jovens a ler e escrever em sueco. Manter-se ocupada é uma prioridade para Afsana que explica que se tiver tempo livre vai sentir-se triste, com saudades da família. Quando se lembra das más experiências no Afeganistão sente-se doente e tem dificuldade a adormecer. “Sou uma mulher afegã, tenho de sofrer as consequências disso. Não posso alcançar os meus sonhos porque, aparentemente, é culpa minha. É culpa minha ter nascido no Afeganistão. Eu abandonei o meu país por causa das tradições e vim para cá para estar longe disso. Mas, infelizmente, cá sou igualmente vítima do preconceito.”


Shoki

Filho de um motorista privado e de uma professora, até aos 26 anos Shoki teve uma vida sem grandes percalços. Tomava conta dos dois irmãos mais novos e todos os meses recebia uma mesada de 10 dólares sírios. Estudou Direito mas, quando chegou a carta que o obrigava a cumprir o serviço militar obrigatório decidiu que não queria enveredar por esse caminho. Saiu da Síria e ficou a viver em casa do primo, no Líbano, durante dois anos e meio. Já casado e com um emprego estável, continuou a não se sentir seguro e, em conjunto com a mulher, partiu para a Europa.

Começou em maio a trabalhar no Centro de Emprego Sueco e tem uma vida estável. Ao contrário de Afsana, Shoki não sente preconceito no sítio onde vive. Já aprendeu a falar sueco e conseguiu, entretanto, um visto de residência.

Quando se fala em religião, Shoki assume-se como muçulmano crente em Deus mas “não seguindo todos os passos de Mohammed”. “A minha religião não é maior nem melhor do que as outras”, desmistifica.

Shoki plaeia ter filhos nos próximos tempos e ajudar mais refugiados a construir uma nova vida na Europa. “É fundamental estudar e trabalhar de forma a inserir-se na sociedade”, acrescentando que tem dois grandes sonhos: trazer o resto da família para viver consigo e ser professor universitário de Direito.


Amjad

Sendo o mais velho de três irmãos, Amjad vivia numa zona rural pobre com várias casas demasiado apertadas em estradas estreitas. Sempre gostou de estudar e o Inglês era uma prioridade no curso de bancário que estava a tirar. A vida aparentemente pacata foi abalada assim que a guerra começou.

Fez a mala assim que percebeu que ia ser obrigado a cumprir o serviço militar obrigatório. Dos 30 sírios que tentaram atravessar a fronteira com a Turquia, Amjad foi um dos três que conseguiu escapar à polícia fronteiriça. Seguiu depois para a Grécia, Macedónia e Sérvia – um longo caminho para chegar ao seu destino: Alemanha.

Recém-chegado à cidade de Passau, Amjad sentiu-se orgulhoso de si próprio por conseguido sair de um clima de guerra. Na nova vida não existia a poluição sonora dos carros, o perigo e a insegurança aos quais estava antes habituado.

Para contribuir de forma positiva para a harmonia da nova cidade onde vive, começou também a ajudar numa associação local, aliando o voluntariado ao facto de estar sempre a conhecer novas pessoas e a fazer amigos. Tudo para se manter ocupado. “Pensava que ia ser muito mais difícil a adaptação”, confessa, “Olhando para trás, todas as minhas expectativas foram superadas. Tudo depende da personalidade de cada um, da capacidade de adaptação e da lista de contactos que cada pessoa faz.”

Continua a manter-se informado acerca dos familiares que continuam na Síria, das conversas que tem tido via Skype e Whatsapp, percebeu que só têm direito a uma hora de eletricidade por dia e acesso a muito pouca água. Além de ter a certeza de não querer voltar, Amjad tem ainda muitos sonhos: encontrar um emprego estável, casar-se, adquirir nacionalidade alemã, ter um filho e reencontrar-se com a família na Europa.


Ahmed

Nascido no Iraque e filho mais velho de uma família já sem pai, Ahmed percebeu que tinha de abandonar a sua cidade duas semanas depois dos militares a invadirem. Fugiu com a mãe e os irmãos para a capital mas com a pressão das autoridades, viram-se obrigados a continuar até ao sul do país para evitar a verificação dos documentos e das bagagens. Apesar do receio inicial, viajaram de barco até à Grécia, onde se depararam com fronteiras fechadas. Ficaram então sete meses a viver numa tenda com 15 sanitas e 4 chuveiros para cerca de 4 mil pessoas. Passado esse período foram levados para a Eslovénia, onde foram entrevistados e registaram as impressões digitais. Só depois disso conseguiram ficar legais nesse país.

Apesar de admitir que a vida na Eslovénia não é fácil e de, em 10 meses, já ter mudado três vezes de casa, a família conseguiu finalmente encontrar um pequeno apartamento só para eles num sótão perto da capital. Estão todos a aprender a língua e, enquanto a mãe passa a maior parte do tempo em casa a recuperar de uma cirurgia recente, os irmãos foram integrados na escola local.

“As pessoas dizem-me que estou seguro, tenho casa, vivo com a minha família em segurança, devia esquecer o passado”, começa por explicar Ahmed, “No entanto, fico deprimido, ansioso e assustado sempre que me lembro do nosso percurso até chegarmos cá”. São várias as dúvidas que ainda assolam Ahmed: “Será que me vou sentir normal outra vez? Vou continuar a pensar tantas vezes neste assunto? Será que alguma vez os pesadelos vão acabar?”.

Entretanto, com apenas 20 anos, já é coautor de três dicionários colabora com diversos professores, ativistas, assistentes sociais e jovens migrantes. Ao mesmo tempo, está a escrever uma autobiografia sobre os últimos três anos que passou enquanto refugiado.